Meu coração transborda de memórias

3 de fevereiro de 2026 às 15h12
Crônicas

Saudade. Esse foi o sentimento que tive ao conversar com uma amiga pesquisadora sobre a pesquisa dela. Ela pesquisou paisagens da COVID-19 e me contou um pouco sobre seu estudo. A fala dela me transportou para as paisagens que vivenciei em 2020 e 2021. Foram anos desafiadores.

Lembro, como se fosse hoje, da ligação da minha mãe falando que meu avô paterno faleceu de COVID, em abril de 2021. Meu avô estava com leucemia e fazia tratamento em um grande hospital de São Paulo. Muitos familiares do meu pai estavam internados devido a COVID: meu avô, minha avó, meu pai e sua irmã. Eu fui para São Paulo, para o velório, que durou 10 minutos. O tempo de cumprimentar alguns familiares, rezar um pai-nosso e uma ave-maria. Todos de máscaras e com medo da COVID. Faltavam meus familiares que estavam internados e que só souberam depois da partida do meu avô. Ainda estávamos desacreditados de tudo o que estava acontecendo.

Recordo com saudade dos últimos momentos com meu avô. Lembro dele no ano novo na casa da minha mãe. Lembro de seu silêncio e do seu olhar. Recordo dos cafés da tarde na casa dos meus avós e dele na ponta da mesa. Tenho na memória o dia que ele me entregou seus exames para que eu pudesse olhar, pois devido eu ter feito Psicologia e ser da área da saúde, ele achava que eu conseguiria interpretar os resultados. Recordo do último aniversário que comemoramos juntos, da sua alegria discreta ao celebrar a vida. Meu avô viajava bastante para o nordeste, onde temos familiares. Lembro que durante meses, quando eu ia na casa dos meus avós, eu tinha a sensação de que ele chegaria a qualquer momento. Que nós iríamos recebê-lo na rodoviária, com suas malas e algum saco de farinha.

Aos poucos vou lidando com sua ausência e compreendendo este novo momento. A saudade ainda é presente. Ela me lembra, com gratidão, dos momentos que pudemos viver juntos. Saudades, Vô Zeca! Você sempre está em minha memória e em meu coração! São muitos momentos para recordar. Meu coração transborda de memórias.

***

Escrever esse texto foi difícil. Recordar desse período da pandemia ainda é doloroso. Parece que foi há tanto tempo. Contudo, foi recentemente que nossa vida foi transformada pela COVID-19. E você, tem alguma recordação desse período? Se quiser, escreva aqui nos comentários e compartilhe conosco. Será um prazer te ouvir e responder.

Um abraço afetuoso,

Carlos Ferreira.

***

Inspiração:

Dalonso, F., Carelli, M. N., & Meira, R. B. (2025). Memórias de paisagens vividas na pandemia de Covid-19: compreensões de um desastre socioambiental. INTERthesis: Revista Internacional Interdisciplinar22(1), 2. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/107699/61006

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7 comentários em “Meu coração transborda de memórias

  • Oi
    Tarde!
    Que lindo, amei…
    A mesma recordação que a sua, e muuuuuita saudade, dói muito ainda! E tudo isso aconteceu em abril , e em Maio mesmo com tudo que passamos descobrir que estava grávida e que vinha sua afilhada, aonde todos ainda estavam muito triste, minha pequena veio pra dar um pouco de alegria pra nós …..

    • Que bom que gostou do texto, Dai!
      Sim, a saudade ainda está presente, mas vamos buscando formas de lidar com ela. E logo após, veio a alegria do nascimento da Monique, para encher nossos corações de esperança.
      Beijos!

  • Parabéns pelo texto…Me fez derramar lágrimas a essa hora da tarde!Saudade sim…tristeza não!

  • Olá
    Seu texto me tocou profundamente também perdi meu avô quando ainda era criança hoje com 22 ainda sinto a falta minha mãe também faleceu quando eu tinha 2 anos
    Estava pensando em um texto de Freud que ele fala que o processo de luto é se desligar do amor de quem partiu, mas será que isso é possível mesmo ?
    Ainda sinto todas essas pessoas ao meu redor e o que mais dá tristeza é que agora não temos mais como acessá-las, tem gente que fala que o preço que pagamos pelo amor é o luto, mais acho que no meu caso só sobrou o vazio rsrsrs
    Um abraço imenso e caloroso no seu coração prof
    Você me inspira

  • Meus sentimentos, Carlos! Tenho poucas memórias dessa época, só lembro da sensação horrível com as notícias… foram tempos difíceis!

  • Caro Carlos!
    Bom lê-lo!
    Memórias de um tempo difícil, também pra mim! Fiquei fechado, sozinho, no apartamento, por 4 meses… que me traziam muitos sentimentos concomitantes: segurança, medo, solidão, vida, morte, ameaça de um inimigo invisível, sensação de fim de mundo, esperança e confiança de que enquanto humanidade, feita de pessoas com muitas potencialidades, com criatividade e ciência, encontraríamos uma saída. De onde? Como? Em tempo de nos salvar? A primeira notícia sobre a vacina muito me encheu de confiança e acendeu uma luz, ainda que muitos diziam que isso levaria anos para se tornar realidade… Eu passei a acreditar que essa regra poderia ser quebrada, naquela vez, não sei porque, talvez movido pelo senso de urgência na necessidade de sobrevivência… E felizmente ela se confirmou. Mas, do isolamento, dentre as lembranças, uma marcou-me muito, a série Merli, que vi nesse período, e quando via as muitas imagens e paisagens de Barcelona, com a normalidade de antes da pandemia, experimentava, por vezes, a sensação de aquilo seria coisa do passado e que talvez não pudesse mais acontecer… Quanto às perdas de pessoas próximas, infelizmente três, duas tias e uma prima, quando também não pudemos estar nos velórios e despedidas… Solidarizo-me com suas perdas e lutos e com as dos que aqui comentaram. A vida é, também feita, de lutos e tristezas… Abraços

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