Como começou a sua relação com a leitura?

3 de setembro de 2026 às 13h00
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A leitura é uma atividade presente na minha vida há muito tempo. Em alguns momentos, com mais intensidade; em outros, menos. Há poucos dias, lendo Mudar: método, de Édouard Louis, quando ele falava da sua introdução aos livros e das bibliotecárias que marcaram a sua história, fui transportado para algumas cenas da minha adolescência relacionadas ao início da minha vida como leitor. Quero compartilhar algumas delas com vocês.

Tenho recordações de ser incentivado a ler pelos meus professores na escola. Lembro-me de ler Tchau, de Lygia Bojunga, e guardo com carinho a memória do conto “O bife e a pipoca”. Recordo-me dos olhares da turma, do encantamento e da forma como Lygia retratava uma realidade de tanta vulnerabilidade.

Também tive a fase de Harry Potter, que, apesar das falas e posturas transfóbicas de J. K. Rowling, é uma excelente obra infantojuvenil. Na época, eu não tinha dinheiro para comprar os livros, então descobri que uma colega da igreja que eu frequentava os tinha. Assim, pedi-lhe os volumes emprestados, um a um, até A Ordem da Fênix. Como eu tinha vergonha de demorar e ficar com a obra por muitos dias, lia bem rápido. Fazia metas por hora e terminava cada livro em, no máximo, uma semana. Depois, já trabalhando, comprei os dois últimos e os li antes de assistir aos filmes. De fato, aquele universo encantador me fez ampliar o mundo e acompanhar uma história marcante de amizade.

Lembro-me também de um livro chamado A primeira vez, que abordava as primeiras experiências sexuais de alguns adolescentes. Todo mundo queria ler. Fazia-se uma lista de espera e a obra virou o assunto da escola. Nessa época, eu era muito próximo das professoras. Terminava as lições e ficava conversando com elas sobre livros, séries e programas de TV; elas foram minhas primeiras incentivadoras. Guardo com muito afeto a memória de professoras queridas e grandes amigas, até hoje: a professora Rosana, que dava aulas de português, e a professora Stela, de história. Lemos juntos O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, além de muitos outros best-sellers. Foi um período excelente para cultivar o hábito da leitura.

Depois, veio a fase dos clássicos, leituras obrigatórias para o vestibular. Mergulhei no universo de Machado de Assis, Rachel de Queiroz, Eça de Queirós, Aluísio Azevedo, Jorge Amado e muitos outros. Alguns me encantavam mais; outros, menos! Mas eu seguia aquela jornada buscando entender as características literárias de cada um e, claro, aproveitar a experiência. Dessa época, a leitura de Capitães da Areia, de Jorge Amado — incentivada pela professora Eliran —, foi uma das mais emocionantes. Chorei muito com a descrição da situação de vulnerabilidade em que viviam as personagens.

Recordo-me ainda de um episódio marcante na escola. Por questões administrativas, a biblioteca parou de emprestar os livros, permitindo a leitura apenas no local. Aquilo me trazia muita indignação. Eu conversava com a bibliotecária, a querida Dona Josefa (que saudade!), e dizia que precisávamos fazer algo para mudar aquilo. Então, escrevi uma carta à direção solicitando o retorno dos empréstimos. O diretor me chamou para conversar e explicou os motivos da instituição, mas a carta não foi suficiente para reverter a regra. Mesmo assim, esse foi um dos meus primeiros movimentos em busca da democratização da leitura e fez parte das minhas revoltas de adolescente.

Lembro-me também da leitura de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, indicada pela bibliotecária do Seminário Santo Afonso, em Aparecida. Recordo que o li pela primeira vez e fiquei com mais perguntas do que respostas. Falei com ela, que me sugeriu lê-lo novamente. Assim o fiz, e fui compreendendo que nem tudo em um livro precisa ser entendido racionalmente; havia algo que passava pelos sentidos e pelos sentimentos. Algo tão verdadeiro quanto as certezas racionais.

Para mim — um jovem da periferia de São Paulo, estudante de escola pública e que viveu uma realidade marcada pelo bullying na escola por ser gay —, a literatura foi um hábito transformador. Só tenho a agradecer aos professores que me incentivaram nesse processo.

Ainda hoje, os livros estão muito presentes na minha rotina, seja na leitura acadêmica e técnica de Psicologia, seja na literária. Sigo perfis de influenciadores, como o Pedro Pacífico (Bookster), e compartilho minhas descobertas com amigos e familiares.

Por falar no podcast Daria um Livro, do Bookster, ele sempre iniciava os episódios perguntando como havia começado a relação do convidado com a leitura, e eu ficava imaginando a minha resposta. Talvez este texto de hoje seja um bom começo para ela.

E você? Como é a sua relação com a leitura? Como ela começou? Que pessoas ou obras marcaram a sua história como leitor?

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