Sobre tomar decisões e seguir outro rumo

25 de janeiro de 2026 às 14h33
Crônicas

Viver as experiências e, se não fizer sentido para o momento, tomar outro rumo. Essa é uma compreensão que venho buscando vivenciar nestes últimos tempos. Semana passada, em um café com um amigo, ele me disse que se inspirava em mim pela coragem de deixar o doutorado em Psicologia. É interessante isso, poder inspirar alguém próximo a mim pelas minhas decisões. Ouvir essa fala do meu amigo, me fez recordar dessa experiência recente. Recordar bem no sentido etimológico da palavra: “dar ao coração novamente” uma memória de uma experiência.

Quando finalizei o mestrado, estava exaurido de 10 anos ininterruptos na Universidade. Decidi parar após o mestrado, ter um período de afastamento da vida acadêmica, trabalhar um pouco e ter um fôlego para o doutorado. Foi um tempo muito bom de afastamento da vida de pesquisador. Aliás, terminei o mestrado com sintomas de exaustão que não me faziam reconhecer o quão importante e significativa foi minha pesquisa. Eu precisava de um tempo distante para poder recordar da minha paixão pelo meu tema de pesquisa, que foi Projeto de Vida. Lembro que quase um ano após a minha defesa participei da reunião de um grupo de estudos da USP sobre Projeto de Vida e eu fiquei encantado ao contar como foi a minha pesquisa. Falar sobre as minhas descobertas e percepções após as entrevistas foi como recordar sobre uma paixão vivida. Tudo fez sentido naquele momento. É curioso como estar imerso em uma pesquisa pode fazer com que percamos esse encantamento, esse amor primeiro.

Depois de alguns anos de trabalho, um desejo sempre marcava os meses finais do ano. Lembro que minha orientadora sempre mandava mensagem para mim falando que o processo seletivo de doutorado estava aberto, no período de inscrições. No fim de 2024, eu fiquei mais motivado a voltar ao doutorado e, depois de muito pensar, me inscrevi para o processo seletivo. Participei do processo e passei. Para minha surpresa, fiquei em primeiro lugar entre os selecionados. Era interessante contar as pessoas que eu passei no doutorado e ver a reação de cada um. Uns muito felizes e entusiasmados, outros menos empolgados e mais conscientes que uma jornada grande de trabalho viria pela frente.

Comecei o doutorado no ano de 2025. Lembro como se fosse hoje o primeiro dia de aula, eu perdido no campus II da PUC-Campinas, com um misto de sentimentos. Feliz por estar retornando a vida acadêmica e já exausto sabendo dos desafios que me aguardavam. Ao vivenciar o primeiro semestre de doutorado, fui experimentando uma exaustão muito grande ao tentar conciliar a jornada de trabalho como professor e psicólogo clínico com as tarefas de estudante. A cada terça-feira era mais difícil sair da cama e ir para a Universidade. Eu começava a me perguntar o porquê estava continuando o doutorado. Tudo foi perdendo o sentido. A exaustão tomou conta do sentido e fui percebendo que meus sentimentos e desejos me inclinava a me perguntar se não era hora de tomar outro caminho.

Mas, como? Após ter sido bem sucedido no processo seletivo, ganhar bolsa (em um ano de tão poucas bolsas) e tendo um bom desempenho nas disciplinas, era difícil justificar aquele sentimento de querer parar o doutorado. Além de tudo isso, ainda tinha um boato de que eu deveria devolver o dinheiro da bolsa recebida. Contudo, os sentimentos me mostravam que o caminho que mais me daria paz era parando o doutorado. Foi uma decisão muito difícil assumir minhas percepções e desejos do momento. Mais difícil ainda foi comunicar essa decisão para pessoas que sonharam comigo esse sonho: meu namorado, minha orientadora, minha família e meus amigos. Lembro, como se fosse hoje, o quão difícil foi falar com minha orientadora, porém fui acolhido por ela ao falar que meu projeto de vida, neste momento, não incluiria o doutorado.

Aprendi muito com essa experiência. Aprendi a respeitar meus sentimentos. Além disso, ter ingressado no doutorado foi fundamental para saber que não quero, por hora, este caminho. Só vivendo a experiência, fui observando o que sentia e tomei decisões a partir desses sentimentos. Claro, não quero romantizar o processo. Não foi fácil declinar da vaga. Conversei com meu namorado e com vários amigos queridos que me acompanharam nessa decisão, falei disso várias vezes na terapia e até recorri à espiritualidade para saber que caminho seguir.

Recebi mensagens de surpresa e de carinho pela minha decisão. Algumas pessoas querendo saber o que realmente me motivou a deixar o doutorado e se solidarizaram comigo. Outros, mais curiosos e surpresos sobre o que tinha acontecido para eu tomar essa decisão: talvez problemas com o programa de pós, dificuldades com minha orientadora ou problemas pessoais. Para alguns, até hoje, de acordo com suas percepções, eu não tive um bom motivo. Quiçá, poderia ser um bom motivo ter vivido uma experiência e percebido que não é por aí?

Este é meu desejo para você que leu este texto até aqui, que você siga seus sentimentos e seu coração. Por mais difíceis que sejam essas decisões, ser congruente com o que sentimos e com quem somos, em minha percepção, é muito gratificante. Até hoje, muitas pessoas me perguntam como está o doutorado. Tem dias que digo que saí e conto parte dessa história que relatei aqui. Outros dias, eu digo: “vai bem!”. Aliás, nem todas as pessoas que perguntam sobre estão realmente interessadas em saber.

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